Por Hilton Libanori PY2BBQ – Coordenador Nacional da RENER

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As recentes condições climáticas extremas no Rio Grande do Sul (RS) levaram a um cenário de inundações e deslizamentos de terra catastrófico, resultando em devastação significativa e perda de vidas. Segundo os últimos relatórios, cerca de 1,4 milhão de pessoas foram afetadas, 230.400 estão deslocadas ou desabrigados devido à devastação causada pelas fortes chuvas e subsequentes inundações. O desastre afetou mais de 300 municípios. A Defesa Civil do RS atualizou para 100 o número de mortes em decorrência dos temporais que atingem o estado. O boletim divulgado na madrugada desta segunda-feira (8 de maio). O estado registra 128 desaparecidos e 372 feridos.

As inundações foram descritas como as piores da história da região pelas autoridades locais e vastas regiões estão sem serviços básicos, como eletricidade e água potável. Organizações de defesa civil de outros estados brasileiros ativamente se envolveram no auxílio. Os esforços incluem o envio de pessoal e equipamento para realizar operações de resgate, fornecer abrigos temporários para desabrigados e distribuir suprimentos essenciais como alimentos, água e ajuda médica.

As inundações prejudicaram gravemente a infraestrutura de comunicação, deixando muitas cidades sem serviços telefônicos ou de Internet. A inundação danificou não só estradas e pontes, mas também impactou as telecomunicações, tornando difícil para os residentes afetados contactarem os serviços de emergência ou mesmo se comunicarem com outras pessoas. A perda de comunicação foi particularmente crítica na coordenação dos esforços de resgate e na divulgação de informações para garantir a segurança pública durante o desastre. A situação realça a vulnerabilidade das redes de comunicação em tempos de catástrofes naturais e a necessidade crucial de infraestruturas resilientes.

Os radioamadores podem ser de grande ajuda em situações como essa. Quando as infraestruturas de comunicação tradicionais, como os serviços telefônicos e de Internet, são prejudicadas ou destruídas por desastres naturais, o serviço de radioamador proporciona um recurso inestimável. Podemos facilitar o fluxo de informações necessárias para coordenar os esforços de salvamento e socorro e, até mesmo, ser a única linha de comunicação com as áreas afetadas.

Radioamadores, no mundo, estão frequentemente envolvidos em redes de comunicações de emergência, trabalhando em conjunto com serviços de emergência e organizações de ajuda humanitária. Podemos ajudar a transmitir mensagens sobre as necessidades da população afetada, coordenar a entrega de ajuda e fornecer atualizações sobre a situação às autoridades e outras partes envolvidas. Este papel é especialmente crucial em cenários de catástrofes extensas, onde a informação e a comunicação são vitais para a resposta eficaz e esforços de recuperação.

Atualmente no RS a maioria dos repetidores VHF e UHF de radioamador estão fora de serviço devido à falta de energia. Ainda assim, radioamadores locais estão utilizando a frequência 146,520 MHz, formando uma rede de comunicação e indicando vítimas que necessitam de resgate, além de outras necessidades. Nosso colega Gilmar (PY3KT), da LABRE-RS está ativo e mantendo o conselho da RENER informado.

Radioamadores da REER-SP estão tentando se deslocar para lá e já estão enviando equipamentos com a programação das repetidoras ativas e 146,520 MHz para uso dos membros da defesa civil e permitir o contato com a rede de radioamadores do RS, conforme informado pelo Fernando (PY2AG), coordenador geral da REER-SP. A ARAF, Associação dos Radioamadores de Florianópolis está fazendo uma ativação simbólica da PP5ARF destinando 1 kg de alimento para cada QSO, mostrando o verdadeiro espírito do radioamadorismo.

Infelizmente, no RS não há colaboração estreita entre os radioamadores e a defesa civil. Outros estados brasileiros como Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Rio de Janeiro e mais recentemente o Espírito Santo desenvolveram redes estaduais de emergência de radioamador (REER), sob o comando das defesas civis estaduais. Nestes estados, os radioamadores envolvidos participam de exercícios simulados e eventos reais. Se o mesmo já estivesse em prática no RS, haveria menor impacto nas comunicações, certamente.

Outros estados como Santa Catarina e Ceará já estão em processo adiantado de criação das REER. Esse passo é fundamental para que possamos atuar de forma coordenada em caso de necessidade. A Defesa Civil Estadual é quem toma o comando da operação num desastre de maior monta. Radioamadores desconhecidos que chegam ao local do desastre se apresentando como tal não serão recebidos e nem sua participação será autorizada. Essa foi uma queixa que recebemos de colegas do RS, mas temos que ter em mente que a Defesa Civil está correta nessa posição.

Não há como sermos voluntários somente nas situações de crise. Numa situação como a atual esperarmos que os agentes de defesa civil, bombeiros, militares ou outros nos incorporem ao staff por estarmos munidos com um walkie talkie e nos apresentarmos como radioamadores é utopia. A única forma de podermos colaborar de forma efetiva é estarmos inseridos no sistema de defesa civil.

O sistema de defesa civil é descentralizado, com a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC), as Coordenadorias Estaduais (CEPDEC) e as Coordenadorias Municipais (COMPDEC). Percebemos nas últimas décadas que pouco vale uma estrutura nacional centralizada de emergência de radioamadores que não tem acesso às defesas civis estaduais ou municipais, como acontecia com a RENER.

A melhor forma de integração dos radioamadores como voluntários de defesa civil é através da criação de redes de emergência de radioamadores em nível municipal e estadual. No entanto, essas redes só serão realmente incorporadas ao sistema se forem criadas e geridas pela defesa civil, e não por entidades de radioamadores. Essa conclusão veio após observarmos que as únicas situações em que, na prática, havia efetividade dessa integração eram em redes como a REER do Paraná, há décadas, e a ROER em Petrópolis.

Uma vez que para a maioria dos municípios brasileiros a defesa civil estadual é a linha de frente no atendimento de desastres, passamos a priorizar a criação de novas REER. Estas, devem ter como princípio o vínculo direto com a defesa civil estadual, sendo criadas ou por decreto do governador ou por portaria da própria CEPDEC. Assim, novas redes foram criadas e outras foram reorganizadas segundo esses princípios, nos estados já citados acima.

A RENER passa a ser, portanto, elo de união e apoio mútuo entre as REER e a ponte dos radioamadores com a SEDEC. Estamos trabalhando na criação de novas redes estaduais. Também temos participado da formulação do novo Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil, iniciativa do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional. Temos sido convidados e tanto o coordenador nacional da RENER como coordenadores estaduais de REER já tivemos a oportunidade de participar de reuniões presenciais e virtuais.

Nosso objetivo é incluir no PNDC a necessidade de criação das REER, passando essa a ser premissa das defesas civis estaduais. Também temos como objetivo a reformulação das portarias da RENER, pouco ou nada compatíveis com uma atuação real dos radioamadores como voluntários de defesa civil. Nessa nova portaria deve haver a reestruturação da RENER, de forma muito simplificada, como órgão de união das REER e elo com a SEDEC.

Esse tem sido um trabalho difícil e mais lento que esperávamos, mas que tem sido muito bem recebido nas reuniões do PNDC. Esperamos que num futuro próximo novas REER sejam criadas e que os radioamadores possam exercer aquilo que está no nosso DNA, que é ajudar ao próximo.

73!

Fonte: https://www.labre.org.br/radioamadores-e-as-enchentes-no-rs/

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